Ela é argentina e a ONU a premiou por uma criação de alto impacto social
María Fernanda Bonesso mostrando ao pai, Miguel Ángel, o aplicativo que criou. Era uma tarde de novembro quando, enquanto a mendocina María Fernanda Bonesso terminava a tese de uma pós-graduação em Buenos Aires…
Publicada em La Nación em 13 de agosto de 2021

María Fernanda Bonesso mostrando ao pai, Miguel Ángel, o aplicativo que criou
Era uma tarde de novembro quando, enquanto a mendocina María Fernanda Bonesso terminava a tese de uma pós-graduação em Buenos Aires, em Maipú seus pais Miguel Ángel e Mónica lutavam para vender os damascos da sua propriedade, porque tinham “parado a colheita”: o preço que recebiam por quilo não dava nem para pagar os colhedores. Uma ligação desesperada da mãe, de Mendoza, foi o estopim para que a jovem pensasse que era preciso fazer algo pelos pequenos produtores das economias regionais.
“Lembro que, desde muito pequena, todo novembro era tensão em casa porque era preciso vender os damascos, e fazer isso com agilidade sempre ficava muito difícil. Meus pais ficavam com um nó de angústia no estômago quando chegava a hora de vender essa fruta precoce. O mesmo acontecia com outros produtos que tivemos em outras épocas, como o tomate e a azeitona”, conta ao LA NACION.
Foi assim que ela entendeu que o sistema de comercialização precisava mudar, porque não havia relação entre o preço pelo qual o produtor vendia e o que os consumidores pagavam nos mercados. Se nada fosse feito logo, mais cedo ou mais tarde, por causa dos custos altos, os agricultores médios e pequenos não iam resistir e acabariam desaparecendo.
Na adolescência, quando acompanhava o pai à propriedade, sempre se perguntava por que a produção de frutas e verduras não era valorizada, se afinal eram alimentos para o mundo. No entanto, consciente ou não, assim que terminou o ensino médio tomou um rumo longe dali para estudar Economia e depois fazer algumas pós-graduações na Espanha e em Buenos Aires.
“Embora fosse algo de que eu gostava muito e tinha aproveitado tanto quando criança, havia algo que me expulsava daqui. Talvez ter visto o sofrimento e a angústia dos meus pais durante tanto tempo tenha me afastado”, diz.
Ela sabia que a solução estava do lado da tecnologia. Havia um problema logístico importante que precisava ser resolvido. “Essa era a minha ponte para mudar essa realidade. Era preciso conectar esses mercados”, destaca.
No fim de 2018, recrutou talentos de tecnologia para desenvolver, ao longo de um ano, o aplicativo para o agro. Assim nasceu a Agrojusto, uma plataforma dedicada a digitalizar empreendimentos agroalimentares. Atualmente, a pequena empresa tem 12 profissionais e o portal reúne mais de 100 produtores de alimentos de todo o país: Misiones, Jujuy, Río Negro e Mendoza, entre outras províncias. Além disso, oferecem capacitações digitais aos agricultores para que saibam usar a plataforma.
Do outro lado do balcão, estão mais de 340 comércios varejistas, que interagem e compram pela mesma plataforma on-line em todo o país. Além disso, as entregas em domicílio são feitas de forma muito simples, com a geração de um roteiro de entregas.
Programas e reconhecimentos
Outra de suas conquistas foi formar alianças com organizações como o INTA (Instituto Nacional de Tecnologia Agropecuária da Argentina) para preparar e capacitar os produtores para que usem a ferramenta com facilidade. “Temos programas em escolas rurais, onde o INTA nos abriu suas redes de contato. É muito importante para nós plantar a semente nas crianças, que são filhos dos produtores que muitas vezes resistem a aprender a usar esse tipo de tecnologia”, detalha.
Para Bonesso, eles são os agentes de mudança para frear o êxodo do campo para a cidade e fortalecer sua permanência no meio rural, incorporando tecnologias. “São os jovens que devem contar aos pais que existe outra maneira de vender seus produtos, e que não é só ficar mais de 10 horas em pé na banca do mercado”, diz.
Além disso, em 2021, sua pequena empresa foi selecionada pela Organização das Nações Unidas (ONU), entre 2.000 inscrições de todo o mundo, como uma das 50 melhores pequenas empresas do concurso “Best Small Business: Good Food for All”, realizado em conjunto com a Cúpula dos Sistemas Alimentares da organização. “Foi um grande orgulho para nós receber esse reconhecimento, que nos impulsiona a continuar crescendo”, concluiu.

